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20 de outubro de 2026São Paulo concentra uma história de séculos com a citricultura. Introduzidas no Brasil pelos portugueses no século XVI, as frutas cítricas ganharam espaço em São Paulo ao longo dos séculos e deram origem a uma cadeia produtiva de alcance internacional. Parte dessa trajetória está nas próprias variedades de laranja, com diferenças de sabor e maturação e histórias curiosas, como a de um fruto que ganhou o apelido de “umbigo” e conquistou produtores em outros países.
A história da citricultura paulista começou a ganhar novos rumos no início do século XX, quando a atividade passou por mudanças que ajudaram a estruturar o setor. Para Dirceu Mattos Jr., diretor do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, vinculado ao Instituto Agronômico (IAC-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, a criação do Centro foi um marco nesse processo:
“A citricultura paulista foi muito beneficiada, principalmente no início dos anos 1900, pelo estímulo a novos plantios, pela utilização de mudas enxertadas e pelo fortalecimento da assistência ao setor, especialmente nas áreas de pesquisa e tecnologia. Um exemplo desse avanço foi a criação da Estação Experimental de Limeira, em 1928, que posteriormente se tornaria o Centro de Citricultura do IAC-APTA, em 1993”.
Atualmente, São Paulo conta com 54 variedades comerciais de laranja registradas no Centro de Citricultura, que se diferenciam pelo sabor, pelo período de maturação e pelo destino da produção. A laranja Pera, por exemplo, representa cerca de 30% da produção de laranjas doces e atende tanto ao consumo fresco quanto à indústria de sucos. Natal, Valência e Folha Murcha também fazem parte da produção paulista.
Uma laranja que ganhou o mundo
A laranja Baía surgiu a partir de uma mutação espontânea identificada na Bahia, no século XIX, e se tornou uma variedade conhecida internacionalmente. Para Dirceu, essa história mostra como uma cultivar originada no Brasil pode ganhar relevância em outros mercados.
“A Baía é uma variedade muito interessante, foi selecionada pelo setor e se tornou uma cultivar. Essa variedade ganhou o mundo, sendo levada para países como Estados Unidos e Austrália. Para os norte-americanos ficou conhecida como Washington Navel, sendo amplamente difundida na citricultura californiana. ‘Navel’ significa umbigo, em referência à característica do fruto, e hoje tem grande importância na produção de frutas frescas da Califórnia. É uma história que pouca gente conhece e que mostra como uma variedade originada aqui conquistou espaço internacionalmente”.
Nem toda fruta conhecida popularmente como laranja é, de fato, uma laranja. É o caso dos kumquats, chamados de laranjas-anãs. Pequenos e consumidos com a casca, eles também são usados no preparo de doces, compotas e geleias.
A pesquisa por trás das laranjas
No Centro de Citricultura Sylvio Moreira, o Instituto Agronômico desenvolve pesquisas em melhoramento genético, fitossanidade, nutrição, biotecnologia e manejo. Nos últimos três anos, 24 novas variedades de citros foram lançadas e disponibilizadas, ampliando as opções para produtores e indústria.
O Centro também abriga o Banco de Germoplasma de Citros do IAC, uma das mais importantes coleções do mundo. O banco conserva materiais genéticos que servem de base para pesquisas de melhoramento e para o desenvolvimento de novas variedades.
Defesa dos pomares contra o greening
Entre os desafios da citricultura está o greening, também conhecido como HLB, doença associada a bactérias e transmitida pelo psilídeo, um pequeno inseto. A Diretoria de Defesa Agropecuária, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, atua no monitoramento da doença e na fiscalização das medidas de prevenção e controle adotadas pelos produtores.
Os citricultores devem inspecionar as plantas cítricas a cada três meses e enviar relatórios semestrais de Cancro Cítrico/Greening pelo sistema informatizado de Gestão de Defesa Animal e Vegetal (GEDAVE). Em 2026, novas regras estaduais passaram a classificar os municípios conforme a incidência da doença, com base nos relatórios dos produtores e nos levantamentos da Defesa Agropecuária. A classificação diferencia as medidas: nas localidades de baixa incidência, a eliminação de plantas sintomáticas é obrigatória independentemente da idade; nas de alta incidência, a obrigatoriedade é concentrada nos pomares de até três anos. O controle do psilídeo permanece obrigatório em todo o Estado.
A fiscalização também abrange a produção de mudas cítricas, para verificar a sua origem genética e as condições fitossanitárias do material usado na formação de novos pomares.
Da produção paulista ao mercado internacional
São Paulo responde por 80% da produção brasileira de laranja, segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). A ligação entre pesquisa e produção também aparece na composição dos pomares paulistas: 90% das variedades cultivadas têm origem no trabalho, ou manutenção de matrizes genéticas pelo Instituto Agronômico (IAC-APTA).
O peso econômico acompanha essa presença no campo. Em 2025, a laranja destinada à indústria movimentou R$ 13,1 bilhões em São Paulo, ficando entre os produtos de maior Valor da Produção Agropecuária (VPA) do Estado. Já a fruta destinada ao consumo in natura somou R$ 3,8 bilhões, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA).
“A citricultura paulista tem apresentado, nas últimas décadas, uma característica ímpar no agronegócio. Nesses 30 anos, o setor superou pressões fitossanitárias, climáticas e econômicas, além dos impactos de políticas globais, alcançando um aumento de duas vezes e meia na produtividade. Poucas culturas apresentaram um avanço dessa magnitude, o que contribuiu significativamente para o crescimento da atividade”, destacou Dirceu Mattos Jr.
A presença internacional também se reflete nas exportações do agronegócio paulista: de janeiro a setembro de 2026, o grupo de sucos movimentou US$ 1,42 bilhão, dos quais 96% corresponderam ao suco de laranja





